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| A festa que não cabia no Brasil moderno. Ilustração digital gerada por IA a partir de concepção histórica e curadoria editorial do blog A Entrudeira (2026). |
O Carnaval como espelho da nação em formação
No Brasil do século XIX, o Carnaval não era apenas festa — era disputa simbólica. Após a Independência em 1822, o país buscava se afirmar como nação moderna, civilizada e distinta de sua antiga metrópole. Nesse contexto, o Entrudo, folguedo popular de origem portuguesa, passou a ser alvo de críticas e proibições. Mas por que esse costume tão arraigado incomodava tanto?
Entrudo: herança lusitana e resistência popular
O Entrudo chegou ao Brasil com os colonizadores portugueses e se consolidou como a principal forma de celebração carnavalesca até meados do século XIX. Com brincadeiras que envolviam água, farinha, ovos e sátiras, o Entrudo era uma explosão de irreverência e desordem — tudo o que a elite ilustrada queria deixar para trás.
As autoridades e intelectuais da época viam no Entrudo um entrave ao projeto de civilização. A prática era considerada “bárbara”, “imunda” e “criminosa”, incompatível com os ideais europeus que inspiravam a elite brasileira. A repressão ao Entrudo, portanto, não era apenas uma questão de ordem pública, mas um gesto político: apagar traços da cultura portuguesa para afirmar uma “brasilidade” moderna.
A perseguição ao Entrudo e o nascimento do Carnaval moderno
Editais, posturas municipais e artigos de jornais passaram a condenar o Entrudo, associando-o a doenças, desordem e até à ameaça de revoltas escravas. A elite temia que o afrouxamento temporário das hierarquias sociais durante o Entrudo pudesse fomentar subversões. Em resposta, surgiram as sociedades carnavalescas — inspiradas nos carnavais franceses e italianos — que propunham uma festa mais “civilizada”, com máscaras, bailes e desfiles.
O Congresso das Sumidades Carnavalescas, fundado em 1855, foi um marco dessa transição. Seus membros, muitos ligados ao mundo das letras, celebravam o afastamento do “manto andrajoso do praguejado Entrudo” e a entronização do Carnaval europeu como símbolo da nova identidade nacional.
Carnaval, identidade e exclusão
A construção da identidade brasileira pós-Independência passou pela negação da cultura popular portuguesa. O novo Carnaval, embora mais refinado, também era mais excludente. Enquanto o Entrudo permitia a brincadeira de ricos e pobres, brancos e negros, o modelo europeu segregava os espaços da cidade e da festa. Essa tentativa de moldar uma “brasilidade” civilizada revela os limites do projeto nacional das elites: uma identidade construída a partir da exclusão de gênero, raça e classe.
O riso que sobrevive
O Entrudo pode ter sido silenciado pelas autoridades, mas não foi totalmente esquecido. Ele sobrevive nas entrelinhas do Carnaval brasileiro, nas brincadeiras de rua, na irreverência das escolas de samba. Revisitar sua história é também revisitar os caminhos tortuosos da construção da nossa identidade — e reconhecer que, às vezes, é no riso, na pilhéria e na brincadeira que mora a verdade.
