O carnaval de Porto Alegre é uma manifestação cultural marcada pela diversidade e pela convivência de diferentes formas de celebração ao longo do tempo. Embora aqui seja apresentado em formato cronológico, é importante destacar que as práticas carnavalescas na cidade não se desenvolveram de maneira linear, nem se encerraram rigidamente em cada período. Ao contrário, elas coexistiram e se sobrepuseram em distintos momentos da história.
Entrudo, sociedades carnavalescas, blocos humorísticos, cordões e escolas de samba são exemplos de expressões que, muitas vezes, dividiram o mesmo espaço urbano e social, revelando tensões, disputas e também diálogos entre diferentes grupos. A cronologia proposta é, portanto, uma forma didática de organizar essa multiplicidade de práticas, permitindo visualizar as transformações e permanências que moldaram os carnavais porto-alegrenses.
Mais do que uma sequência de datas, esta linha do tempo busca evidenciar o caráter plural e dinâmico da festa, que se reinventa a cada geração e continua sendo um espaço de identidade, resistência e celebração coletiva.
Trazido pelos casais açorianos, o entrudo foi a primeira forma de carnaval praticada na cidade. A brincadeira consistia em molhar uns aos outros com baldes, bacias e “limões de cheiro” — pequenas bolas de cera recheadas com líquidos perfumados ou desagradáveis. Era uma festa popular, marcada por corridas, gargalhadas e caos festivo, que se espalhava pelas ruas e envolvia a comunidade. Com o crescimento urbano no século XIX, o entrudo passou a ser alvo de críticas e proibições, acusado de prejudicar a saúde e a ordem pública. Mesmo assim, resistiu por décadas, até ser abandonado durante a epidemia de cólera de 1855–1856, quando o medo da doença levou os foliões a buscar formas mais seguras de celebrar.
Apesar das tentativas de repressão, o entrudo ressurgiu em 1869 e passou a ser praticado junto ao carnaval moderno, adaptando-se às novas formas da festa. No lugar dos tradicionais limões de cheiro, surgiram as bisnagas e seringas de água, que mantinham viva a essência da brincadeira. Há registros de sua prática em Porto Alegre até o início do século XX.
Com a suspensão do entrudo durante a epidemia de cólera de 1855–1856, os porto-alegrenses buscaram novas formas de celebrar o carnaval. A alternativa encontrada foram os bailes de máscara, que ganharam destaque em 1857, quando o colunista O Freguês, do jornal O Guayba, registrou a realização de animados “bailes masqués” no Café Fama. Esses eventos reuniam famílias e foliões mascarados, que se distinguiam pelo humor e pela criatividade com que desempenhavam seus papéis festivos, oferecendo à cidade uma celebração mais organizada e segura em tempos de medo e restrição.
A prática já era conhecida no Rio de Janeiro desde a década de 1840, inspirada nos luxuosos bailes europeus e promovida pela elite como forma de “civilizar” o carnaval, substituindo a desordem popular do entrudo por uma festa refinada e controlada. Em Porto Alegre, os bailes de máscara marcaram a transição para um carnaval moderno, introduzindo elementos de sofisticação e sociabilidade que conviviam com tradições populares, e que moldariam o futuro da folia na capital gaúcha.
Na imagem abaixo, charge do semanário Guarany sobre o baile de máscaras no Teatro São Pedro, em 1874.
O carnaval moderno de Porto Alegre nasceu em 1873 com a fundação das sociedades Esmeralda e Venezianos. Essas agremiações surgiram como resposta ao entrudo, considerado uma prática arcaica e inconveniente. Inspirados nos desfiles de carros temáticos e luxuosos bailes europeus e nos clubes carnavalescos já existentes no Rio de Janeiro, os novos grupos buscavam “civilizar” a festa, substituindo a desordem popular por desfiles organizados e bailes exclusivos. Seus carros alegóricos percorreram as principais ruas da cidade, enquanto os sócios participavam de bailes burlescos e de gala, marcando uma nova etapa da folia porto-alegrense.
De acordo com o jornal O Independente, o episódio que motivou a criação dessas sociedades foi um conflito entrudesco em que a casa da família Masson foi invadida e inundada por foliões. O prejuízo levou Amadeu Masson a aconselhar a formação de clubes carnavalescos para pôr fim ao entrudo. Assim, Esmeralda e Venezianos tornaram-se símbolos de progresso e modernidade, representando a transição de uma brincadeira popular considerada “grosseira” para uma celebração burguesa e organizada. Com eles, Porto Alegre ingressava na chamada Era Carnavalesca, alinhando-se às aspirações de civilização e progresso que marcavam o século XIX.
Na imagem, litografia de Araújo Guerra sobre os préstitos de Esmeralda e Venezianos, em 1881, publicada em O Século.
No início do século XX, o carnaval de Porto Alegre apresentava uma multiplicidade de formas de celebração. Bailes públicos, festas promovidas por agremiações recreativas e sociedades carnavalescas conviviam com desfiles de clubes, mascarados avulsos, o jogo do entrudo, confete e serpentina, além da batida do Zé Pereira que animava as ruas. A festa acontecia tanto no centro quanto nos arrabaldes, refletindo a diversidade social da cidade.
Essa pluralidade, porém, era atravessada pelas hierarquias de raça, classe e gênero que marcavam a sociedade porto-alegrense. As grandes sociedades, como Esmeralda e Venezianos,renascidas em 1906, buscavam projetar uma imagem de carnaval familiar e moralizado, exaltado pela imprensa como exemplo de “excelência” e bom comportamento. Já as manifestações vindas de outros segmentos sociais eram frequentemente retratadas como “licenciosas” e ameaçadoras à ordem e à moral familiar.
Sob a influência de um positivismo difuso, que permeava política, religião e vida intelectual, o carnaval tornava-se espaço de tensões e disputas sobre os valores que definiriam o viver em sociedade. Entre corsos luxuosos e blocos populares, a festa revelava tanto os contrastes quanto as alianças que moldavam a vida urbana no início do século XX.
Abaixo, imagem de carro alegórico da sociedade Esmeralda, 1907.
Na década de 1930, o carnaval de Porto Alegre consolidou-se como uma festa de rua, marcada pela criatividade dos bairros populares. Enquanto as grandes sociedades carnavalescas perdiam espaço, multiplicavam-se os blocos e bandas humorísticas, que animavam as ruas com sátiras, marchinhas e desfiles irreverentes. Entre eles, destacou-se o Tira o Dedo do Pudim, exemplo da inventividade popular que transformava o cotidiano em espetáculo. Esses grupos, muitas vezes formados por trabalhadores e pequenos comerciantes, davam ao carnaval um caráter comunitário e espontâneo, em contraste com os bailes elitizados do centro.
A questão racial foi central nesse processo: comunidades negras, especialmente no Areal da Baronesa, Cidade Baixa e 4º Distrito, desempenharam papel fundamental na criação de cordões e blocos, trazendo batuques, samba e percussão para o coração da festa. O carnaval de bairro tornou-se espaço de afirmação cultural e resistência, onde negros e mestiços, historicamente marginalizados, se tornaram protagonistas. Ao mesmo tempo, o Estado Novo buscava disciplinar e oficializar os desfiles, incentivando sambas-enredo patrióticos. Assim, os anos 1930 marcaram a transição para um carnaval cada vez mais popular, plural e racialmente diverso, que pavimentaria o caminho para o surgimento das escolas de samba.
Abaixo, o bloco carnavalesco Tira o Dedo do Pudim, Vicente Rao como o “juiz”. Acervo da Fototeca Sioma Breitman - Museu Joaquim José Felizardo.
Na década de 1960, o carnaval de Porto Alegre assumiu definitivamente a forma de espetáculo. Os desfiles das escolas de samba passaram a ser organizados em espaços delimitados, com arquibancadas, iluminação e regras de competição, transformando a festa em um evento grandioso e institucionalizado. O samba-enredo, os carros alegóricos e as fantasias elaboradas tornaram-se protagonistas, e as apresentações ganharam caráter profissional, atraindo público, mídia e patrocínios.
Esse modelo marcou a transição do carnaval de rua espontâneo para um evento competitivo e midiático. Ao mesmo tempo, manteve sua dimensão comunitária: as escolas de samba continuaram a ser espaços de sociabilidade e identidade cultural, especialmente para as populações negras e populares da cidade. Assim, o carnaval espetáculo dos anos 1960 consolidou Porto Alegre no circuito das grandes festas brasileiras, equilibrando tradição e modernidade.
Abaixo, fotografia do desfile da S. B. C. Bambas da Orgia, campeã do carnaval de 1983, com o enredo “Pouco Importa o Quanto Importa, o Importante é Sambar”.