Carnaval que se lê: jornais, sátira e crítica nas ruas de Porto Alegre

Ilustração gerada por inteligência artificial, inspirada em descrições do carnaval porto-alegrense do século XIX.


O desfile para além do olhar

No carnaval porto-alegrense do século XIX, o desfile das sociedades carnavalescas não se limitava ao impacto visual de carros, fantasias e música. As ruas também se convertiam em espaço de leitura. Tanto a Sociedade Carnavalesca Esmeralda quanto os Venezianos lançaram mão de uma prática recorrente e significativa: a distribuição de pequenos jornais durante seus desfiles, impressos efêmeros que articulavam humor, crítica de costumes, afirmação identitária e diálogo direto com o público.

Esses jornais carnavalescos funcionavam como extensão simbólica do cortejo. Enquanto a agremiação se apresentava corporalmente na cidade, o impresso oferecia uma camada adicional de sentido, convidando os espectadores a ler, rir, refletir e reconhecer-se — ou sentir-se interpelados — pelas palavras lançadas em meio à festa. O carnaval, assim, não se afirmava apenas como espetáculo visual, mas igualmente como espaço de leitura, sátira e intervenção simbólica no cotidiano urbano.

Um jornal lançado ao público

Um dos registros mais antigos dessa prática aparece em 15 de fevereiro de 1875, no jornal A Reforma, que noticiava a atuação da Esmeralda durante o desfile daquele ano:

Um dos batedores distribuiu um pequeno jornal da sociedade, escrito com notável bom gosto e como para prová-lo damos aqui o artigo de fundo.

Na sequência, o periódico transcrevia integralmente o texto inaugural do impresso, intitulado “Aos leitores”. Ali, a Esmeralda se apresentava ao público por meio de uma linguagem fortemente metafórica, marcada pela sensibilidade romântica e pela retórica da gratidão. A sociedade se comparava a uma planta jovem, que surge “vacilante ainda, porém mais forte, mais prazenteira, mais confiante”, fortalecida pelo acolhimento do “ilustrado povo de Porto Alegre”. O texto não apenas agradece as simpatias recebidas, mas constrói uma narrativa de legitimação pública, afirmando a agremiação como parte ativa da vida cultural da cidade.

Mulheres, festa e consagração pública

Um aspecto que chama atenção no artigo é o destaque conferido às mulheres, referidas como “o sexo mimoso” e “a alma da vida”. A elas, a Esmeralda dirige agradecimentos especiais, atribuindo à presença feminina o brilho e o encanto considerados indispensáveis aos festejos carnavalescos. Contudo, esse reconhecimento discursivo contrasta com as transformações concretas impostas pela consolidação do modelo de carnaval organizado por esmeraldinos e venezianos. 

Nesse novo arranjo festivo, as mulheres — anteriormente protagonistas nas brincadeiras do entrudo — são deslocadas para a condição de espectadoras de uma festa concebida, conduzida e controlada por jovens carnavalescos. O elogio à figura feminina, portanto, não se traduz em protagonismo efetivo, mas opera como um recurso simbólico que, ao mesmo tempo em que exalta a mulher como ornamento e inspiração da festa, contribui para restringir sua participação ativa. Assim, o discurso carnavalesco reconhece a centralidade do feminino no plano simbólico, ao passo que, na prática, reafirma uma dinâmica de gênero que subordina a presença das mulheres à lógica masculina de organização e consagração do espetáculo.

Rir, criticar, moralizar

Além do artigo de fundo, o pequeno jornal distribuído pela Esmeralda continha “outros escritos jocosos” e uma poesia satírica intitulada “Coisas Quadradas”, também transcrita por A Reforma. O poema ironiza modismos considerados excessivos, especialmente aqueles associados à moda feminina de inspiração francesa — anquinhas, pós, pinturas faciais e adornos corporais.

Sob o tom moralizante e humorado, a poesia explicita tensões culturais vividas na Porto Alegre oitocentista: tradição e modernidade, simplicidade e ostentação, costumes locais e influências estrangeiras. A sátira, nesse contexto, cumpre um papel central. Ao ridicularizar comportamentos e exageros, o jornal carnavalesco se insere em uma longa tradição de crítica social autorizada pelo tempo da festa.

Entre a Esmeralda e os Venezianos

Práticas semelhantes podem ser observadas entre os Venezianos, que também fizeram uso de jornais e textos satíricos como parte de sua performance pública. Em ambos os casos, a escrita se soma ao desfile como linguagem carnavalesca, reforçando a dimensão intelectual, literária e política dessas sociedades, que disputavam o espaço urbano não apenas com carros e fantasias, mas também com palavras.

Se, em 1875, a distribuição de jornais já se apresentava como uma prática consolidada, ela não se esgota no século XIX. Décadas depois, a Sociedade Carnavalesca Esmeralda continuaria a lançar mão desse recurso, como demonstram os fragmentos de seu jornal de 1909. 

Na próxima postagem, olharemos mais de perto esse documento, analisando como a Esmeralda atualiza, reformula e preserva a tradição de transformar o desfile em leitura — e o carnaval, em escrita efêmera da cidade.

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