Batalhas de Flores no Carnaval

Automóveis que tomaram parte na batalha de flores por ocasião do 15 de Novembro. Kodak, Porto Alegre, 22/11/1919, p. 26.

As chamadas Batalhas de Flores constituíam uma prática bastante comum nos festejos de Momo. Originárias do carnaval de Nice, consistiam em cortejos de carruagens ornamentadas — posteriormente substituídas por automóveis — conduzindo foliões fantasiados que travavam entre si disputas simbólicas arremessando flores.

No Brasil, o primeiro registro de uma Batalha de Flores remonta a 1888, em Petrópolis (RJ). Buscando substituir o entrudo, “condenado pelas sociedades cultas, por prejudicial e perigoso”, o barão Benjamin Franklin Ramiz Galvão — preceptor dos filhos da princesa Isabel — propôs que Petrópolis, “cidade risonha das flores, bem poderia iniciar entre nós esta festa” (Mercantil, Rio de Janeiro, 25 jan. 1888, p. 1). De fato, no domingo de carnaval daquele ano, “a Princesa tomou a frente do préstito e deu o sinal da partida”, inaugurando a prática em solo brasileiro, mesmo sob chuva, com carros carregados de flores (Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 14 fev. 1888, p. 1).

Para além da dimensão lúdica, o evento assumiu um caráter político. A Batalha de Flores visava arrecadar donativos em prol da abolição da escravidão (Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 15 fev. 1888, p. 1), sinalizando publicamente o apoio da regente à causa abolicionista. Como analisa Eduardo Silva (2003, p. 39-40), a iniciativa foi recebida como um gesto de desafio às elites escravistas e associada diretamente à queda do gabinete de João Alfredo, em março de 1888. O barão de Cotegipe, último defensor do regime escravista, atribuía a crise ministerial não ao movimento abolicionista em si, que qualificava como mera “arruaça”, mas ao posicionamento da princesa Isabel, a que se referia, de modo sutil, como “batalha de flores”.

Em Porto Alegre, uma das primeiras referências às Batalhas de Flores no carnaval aparece em 1903, promovida pelo Club Menino Deus. A agremiação, sediada no arrabalde homônimo, organizou uma festa que atraiu numeroso público, enchendo a quadra final da rua Treze de Maio (atual avenida Getúlio Vargas) até a praça do arraial. Seguindo em cortejo pela rua José de Alencar, não tardou a se formar “as duas filas contendoras” e a travar-se “a batalha de flores, confete, serpentinas, etc.” (A Federação, Porto Alegre, 23 fev. 1903, p. 2).

Ainda que não fosse uma prática restrita ao carnaval — sendo incorporada, por exemplo, às comemorações da Proclamação da República e da Constituição Federal —, a Batalha de Flores consolidou-se como parte do calendário carnavalesco porto-alegrense. Em 1933, integrava oficialmente o programa organizado pela Comissão Central dos festejos de Momo:

Trata-se de uma grandiosa BATALHA DE FLORES, na qual tomará parte o que de melhor possui a sociedade porto-alegrense. O entusiasmo é extraordinário, podendo-se desde já afiançar que ela coroará com brilhantismo os esforços dos cronistas da imprensa local. Os membros da Comissão Central fiscalizarão a batalha, enquanto a Inspetoria de Veículos, dirigida pelo capitão Isidoro Cunha, como sempre, fará o serviço de policiamento dos autos (A Federação, Porto Alegre, 25 fev. 1933, p. 2).

Assim, das ruas de Petrópolis à oficialização em Porto Alegre, as Batalhas de Flores revelam como uma prática de origem europeia foi adaptada e ressignificada no Brasil, ora associada a causas políticas, ora incorporada como espetáculo do carnaval urbano.

Referências

SILVA, Eduardo, As camélias do Leblon e a abolição da escravatura. Rio de Janeiro: Cia das Letras, 2003.

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