LIVROS QUE SERVEM PARA CONHECER ENREDOS QUE IRÃO PARA A AVENIDA EM 2026
ACADÊMICOS DE NITERÓI
Estreante no Grupo Especial, a escola do Largo da Batalha resolveu mergulhar fundo na história do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, pra isso, o carnavalesco Tiago Martins não tirou a ideia do nada. Ele está bebendo direto da fonte de Fernando Morais, no livro “Lula”.
Quem já folheou a obra, sabe que o autor passou anos acompanhando o ex-metalúrgico nordestino, e a Niterói quer levar para a passarela do samba justamente esse lado humano do operário que virou o topo da pirâmide.
MOCIDADE INDEPENDENTE DE PADRE MIGUEL
A verde e branco da Vila Vintém, sob o comando do mestre Renato Lage, vai fazer o que todo mundo queria: colocar a “Padroeira da Liberdade” no altar. E olha, pra entender esse enredo, a leitura das duas autobiografias da Rita Lee (1947 - 2023) é obrigatória. A de 2016 e a de 2023, escrita já no apagar das luzes, são o mapa da mina.
Rita nunca foi de meias palavras, e Lage, que é o rei do “carnaval high tech”, combina perfeitamente com a irreverência dela.
PARAÍSO DO TUIUTI
O carnavalesco Jack Vasconcelos é sinônimo de pesquisa séria. Com o enredo “Lonã Ifá Lukumi”, ele foi buscar suporte no mestre Nei Lopes e seu livro “Ifá Lucumí: O resgate da tradição”.
Pra quem não é familiarizado, o Ifá é um sistema adivinhatório complexo, e essa vertente afro-cubana traz uma camada de misticismo que a gente pouco vê mastigadinha por aí e que a Tuiuti terá o privilégio de apresentar.
IMPERATRIZ LEOPOLDINENSE
A Rainha de Ramos vai com tudo pra cima juntamente com Ney Matogrosso. E o carnavalesco Leandro Vieira, que adora um detalhe, utiliza a biografia escrita por Julio Maria como bíblia.
O enredo “Camaleônico” já entrega o jogo no nome: o foco é na metamorfose constante desse artista que é a cara do Brasil. O livro é riquíssimo em passagens sobre a época dos Secos & Molhados e a resistência do Ney contra a caretice durante a ditadura. Prato cheio para a Imperatriz deitar e rolar.
BEIJA-FLOR DE NILÓPOLIS
Atual campeã do carnaval, a Deusa da Passarela, resolveu ir buscar na Bahia o enredo sobre o Bembé do Mercado, de autoria do carnavalesco João Vitor Araújo. Quem desejar uma imersão nesse universo fascinante, eis o livro “Okorin Odé e o Bembé do Mercado”, de Murillo Pereira de Jesus, ilustrado por Emily Maia.
O Bembé é uma festa de candomblé de rua única no mundo, que acontece anualmente no mês de maio, em Santo Amaro da Purificação (BA), e o livro detalha essa resistência religiosa que já dura mais de um século.
O projeto surgiu da inquietação de Murillo ao perceber a ausência de materiais voltados ao público infantil que tratassem do Bembé do Mercado – uma das mais importantes celebrações de matriz africana do Brasil. O autor criou uma narrativa que une tradição, infância, ancestralidade e educação.
A obra acompanha Miguel, um menino que vivencia pela primeira vez o Bembé do Mercado e mergulha nesse universo de descobertas. A história aborda temas como educação patrimonial, combate à intolerância religiosa e valorização da cultura afro-brasileira.
UNIDOS DE VILA ISABEL
A escola do bairro de Noel Rosa, com a dupla Gabriel Haddad e Leonardo Bora, vai homenagear o mestre Heitor dos Prazeres, fundador de várias escolas de samba. Pintor, compositor e sambista, Heitor foi um visionário que sonhou a África no Rio de Janeiro.
Um livro interessante para acompanhar a trajetória do artista “Heitor dos Prazeres: Sua Arte e Seu Tempo”, escrito por Alba Lirio e Heitor dos Prazeres Filho, herdeiro do legado fantástico deixado por seu pai. O livro é raridade, está com a edição esgotada, mas vale a pena um “garimpo” em sebos e bibliotecas.
Pela leitura, percebe-se como Heitor usava suas telas pra pintar um Rio de Janeiro que era negro, elegante e festivo, como o carnaval que a Vila pretende mostrar.
PORTELA
A Majestade do Samba sempre surpreende quando resolve falar de religiosidade. Dessa vez, o carnavalesco André Rodrigues vai levar para a Sapucaí a história do Príncipe Custódio (1832 - 1935), e o batuque, a religião afro-gaúcha. Quem estiver interessado em saber mais deste personagem que sofreu com o apagamento histórico, pode encontrar a tese de Maria Helena Nunes, disponível online no Repositório da UFPE (https://shre.ink/5Ldj).
É um tema que quebra todos os estereótipos que grande parte do público tem sobre certas regiões do país. Quem diria que no Sul existia uma tradição de batuque tão forte e com um Príncipe africano no centro disso tudo?
O Príncipe Custódio foi uma figura mística que teria influenciado até políticos da época. A aposta da Portela é uma das mais interessantes do ano, porque a Águia de Madureira vai voar por céus nunca antes navegados pelo Carnaval carioca, mostrando que a matriz africana tem ramificações que a gente nem imagina.
Outro livro fundamental sobre as religiões afro-gaúchas é “Cavalo de Santo” (2011), da fotógrafa e jornalista Mirian Fichtner. Para fazer a pesquisa, acompanhar rituais e captar as imagens, ela ficou quatro anos na ponte aérea Rio de Janeiro-Rio Grande do Sul. Ao todo, foram tiradas mais de dez mil fotos e 153 foram editadas para a obra. Dez anos depois, o livro deu origem a um documentário, de mesmo nome.
E é justamente dessa vivência que nasce este mergulho nos livros que inspiram os enredos do Carnaval 2026. E se engana quem pensa que nosso desfile literário terminou: na próxima postagem, Gerson conduz a leitura para Mangueira, Grande Rio, Tijuca, Salgueiro e Viradouro — mostrando como personagens, movimentos e memórias se transformam em samba e alegoria.
📚 Fique ligado: a continuação promete revelar como a literatura e a pesquisa se tornam arte e emoção na avenida!








