CARNAVAL PARA LER – Parte 2

LIVROS QUE SERVEM PARA CONHECER ENREDOS QUE IRÃO PARA A AVENIDA EM 2026

Se na primeira parte da nossa jornada literária vimos como grandes obras inspiram os enredos de escolas como Portela, Beija-Flor, Imperatriz e Vila Isabel, agora seguimos com mais cinco agremiações que também mergulharam fundo nas páginas para construir seus desfiles de 2026.


ESTAÇÃO PRIMEIRA DE MANGUEIRA

O carnavalesco Sidnei França foi buscar no Amapá a história de Raimundo dos Santos Souza, conhecido como Mestre Sacaca (1926 - 1999). Pra não chegar no Sambódromo (ou ficar na frente da TV) boiando, você precisa colocar as mãos no cordel de Joseli Dias, “Sacaca - O mestre das plantas e o rei do carnaval”. É um livrinho que prova que o Carnaval é o único lugar onde um especialista em plantas medicinais pode, com a mesma dignidade, ostentar a coroa de Rei Momo de Macapá por décadas.

A verde e rosa não vai só falar de Amazônia; vai mostrar uma “Amazônia Negra”, que o morador do Sul ou Sudeste, mal consegue visualizar. O Mestre Sacaca era o conhecedor que sabia qual folha curava a dor do corpo e qual ritmo curava a dor da alma. É uma leitura que faz a gente perceber que a floresta não é só árvore e bicho, é gente preta produzindo conhecimento e alegria de um jeito que a gente nunca viu na Sapucaí.

Se eu fosse você, já procurava esse livro pra entender por que o Mestre Sacaca é o guardião que a gente não sabia que precisava conhecer.


ACADÊMICOS DO GRANDE RIO

A Tricolor de Duque de Caxias 2026 vai para o mangue, mas não é qualquer ecossistema não. É a “Nação do Mangue”, inspirada pelo movimento pernambucano Manguebeat.

Uma das fontes que o carnavalesco Antônio Gonzaga certamente bebeu foi “Chico Science e o Movimento Mangue”, de Moisés Monteiro de Melo Neto. O livro é um manifesto sobre como a lama do Recife gerou uma das revoluções musicais mais importantes do Brasil.

A estética do caranguejo com cérebro, as antenas parabólicas fincadas na lama, tudo isso que Chico Science (1966 - 1997) escreveu e cantou está no livro e vai para o Sambódromo. A Grande Rio, que já vem de uma sequência de enredos muito brasileiros e viscerais, achou mais um tema perfeito.

O livro é um manifesto sobre como a lama do Recife gerou uma das revoluções musicais mais importantes do Brasil.


UNIDOS DA TIJUCA

O carnavalesco Edson Pereira e a escola do Morro do Borel vão levar à avenida a vida e a obra da gigante Carolina Maria de Jesus (1914 - 1977). Para isso, o livro recomendado, claro, é o clássico “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”. É uma obra que mudou a literatura brasileira e que agora ganha as proporções da Sapucaí. O livro é seco, direto, dói na alma.

Falar de Carolina é falar de fome, de escrita como salvação e de uma mulher que não se calou diante da miséria. Preta, pobre e favelada, Carolina era uma catadora de papel que escreveu sua vida em cadernos achados no lixo. Ver a Tijuca transformar esses escritos em alegorias é um ato político fortíssimo.

“Quarto de Despejo” não é um livro confortável. E é por isso que segue necessário. A literatura de Carolina não pede piedade. Pede escuta.


ACADÊMICOS DO SALGUEIRO

O “torrão amado”, novamente sob o comando do carnavalesco Jorge Silveira, vai fazer uma homenagem à maior de todas: Rosa Magalhães (1947 - 2024). A professora, carnavalesca e cenógrafa é a maior campeã do Sambódromo e tinha um estilo acadêmico, detalhista e irônico.

Para conhecer um pouco de sua trajetória, o livro “Rosa Magalhães, a Moça Prosa da Avenida”, de Luís Ricardo Leitão. O título do enredo é longo e brincalhão, bem ao estilo dela.

Leitão explora como ela revolucionou a estética dos desfiles, trazendo o rigor histórico sem perder o humor. A vermelho e branco vai fazer um desfile que será uma aula de história da arte, mas com o gingado da Academia do Samba.

O livro do Leitão explora como Rosa revolucionou a estética dos desfiles.


UNIDOS DO VIRADOURO

A vermelho e branco do Barreto escolheu homenagear o seu mestre de bateria, Ciça, com o enredo “Pra Cima, Ciça!”. O carnavalesco Tarcísio Zanon sabe que a vida de Moacyr da Silva Pinto se confunde com a história do samba moderno.

O atual regente da Bateria Furacão Vermelho e Branco começou sua história na antiga Unidos de São Carlos, que depois se tornou Estácio de Sá, e revolucionou a forma de tocar bateria com suas bossas e paradinhas ousadas.

Embora não haja um livro único focado só nele, a trajetória de Mestre Ciça está espalhada em várias obras sobre samba e escolas, entre elas, “As Titias da Folia” e “Estácio: vidas e obras”.

“As Titias da Folia” retrata as escolas de samba Estácio de Sá, Unidos da Tijuca, Vila Isabel e Viradouro. As quatro agremiações são mencionadas como titias pois só atingiram o protagonismo na folia carioca depois de já ostentarem algumas ruguinhas e muitos quilômetros rodados por diferentes passarelas.

Já “Estácio: vidas e obras” busca recontar a história do bairro de seus primórdios aos dias de hoje. Trata-se de um passeio singelo que traça sua geografia cultural e social visitando suas avenidas, ruas, praças, casas, comércio, morros, becos, vielas, botecos, terreiros e quadras.

“As Titias da Folia” retrata Unidos da Tijuca, Vila Isabel, Estácio de Sá e Viradouro – as duas últimas tiveram Mestre Ciça como regente de bateria.

Um passeio pela história e pela geografia cultural e social do bairro é o que propõe “Estácio: vidas e obras”, berço do Mestre Ciça.

Você já parou pra pensar que um desses livros da sua escola favorita pode ser o próximo campeão do Carnaval?

Então largue o celular e corra para uma livraria ou biblioteca e leia uma dessas obras!

📌 Gerson Brisolara é jornalista e pesquisador formado pela UFRGS, um apaixonado por música, literatura e carnaval. Atuou em diversas redações e veículos de comunicação no RS e, desde 1996, participa de transmissões de desfiles de escolas de samba. No carnaval, é jurado, temista e apresentador de programas especializados, além de colaborar em publicações como Sambario, Kazumba, Carnaval Enfoco e A Entrudeira.


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