O mistério do Príncipe do Bará: a Portela e a memória negra do Sul

Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial, inspirada no enredo da GRES Portela 2026.

Ao anunciar o enredo “O Mistério do Príncipe do Bará: a oração do Negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”, a GRES Portela ilumina uma história por muito tempo silenciada: a presença negra no Rio Grande do Sul. Mais do que contar a trajetória de uma personalidade, o enredo propõe uma travessia entre História, memória, espiritualidade e resistência, tecida pela figura do Príncipe Custódio, pelo Negrinho do Pastoreio e pelos múltiplos sinais da permanência negra nos pampas. Nesta análise, revisitamos a sinopse e o samba-enredo da escola, destacando os sentidos históricos e simbólicos dessas personagens, os territórios negros de Porto Alegre e as manifestações culturais que seguem reafirmando a presença negra no Sul. O convite está lançado: acompanhar essa leitura é também caminhar por trilhas de memória que o carnaval insiste em manter vivas.

O Negrinho do Pastoreio: da lenda que apaga à memória que resiste

Figura central do enredo, o Negrinho do Pastoreio é reposicionado pela Portela. Tradicionalmente narrado a partir de versões folclóricas que destacam a violência da escravidão, mas apagam sua dimensão racial, o Negrinho reaparece aqui como símbolo de dignidade negada, de dor ancestral e de memória acesa. Sua vela não é apenas milagre: é farol. Seu galope não é fábula: é denúncia.

Ao colocá-lo como mensageiro de Bará — senhor das encruzilhadas, dos caminhos e da comunicação — o enredo reinscreve o Negrinho no campo da resistência negra, transformando-o em herdeiro de uma coroa perdida e em guardião de uma história que insiste em sobreviver.

Príncipe Custódio: realeza negra, liderança popular e batuque no Sul

Foto: Virgilio Calegari/Wikipedia

É o Negrinho quem encontra, no “escuro do esquecimento”, a coroa do Príncipe Custódio. Figura envolta em mistérios, Custódio Joaquim de Almeida foi um africano que viveu em Porto Alegre entre o final do século XIX e as primeiras décadas do XX, tornando-se referência central no imaginário religioso e político da comunidade negra da cidade.

Seja como príncipe oriundo do antigo Reino do Benin, seja como liderança construída no exílio e na diáspora, Custódio foi reconhecido como chefe dos pobres, curandeiro, articulador político e organizador dos cultos africanos no Rio Grande do Sul. O enredo enfatiza seu papel fundamental na organização do Batuque, unificando diferentes nações africanas sob um mesmo toque, um mesmo tambor e uma mesma estratégia de sobrevivência cultural.

Custódio é apresentado como aquele que “assentou a África nos Pampas”, fundando uma espiritualidade negra profundamente enraizada no território sulino — ainda que negada pelo discurso oficial da história regional.

Bará do Mercado e a cidade negra de Porto Alegre

Foto: Guilherme Fernandes / Destino POA.

A narrativa da Portela dialoga diretamente com espaços concretos da cidade de Porto Alegre, em especial o Bará do Mercado Público, entendido como encruzilhada física, espiritual e histórica. Assentado ali, Bará se torna símbolo da ocupação negra da cidade, da circulação de saberes africanos e da resistência frente à intolerância religiosa e ao apagamento patrimonial.

Ao lado do Bará, o samba-enredo destaca a Irmandade do Rosário de Porto Alegre, sintetizada no verso: “Da crença no mercado / Ao rito do Rosário / Ainda segue vivo o seu legado”. Criada em 1786 e aberta a diferentes grupos étnicos, a irmandade contou com forte participação de negros livres e escravizados e teve papel fundamental na preservação de elementos da religiosidade africana. Esses elementos, articulados às práticas do catolicismo, foram ressignificados e adaptados às condições impostas pela sociedade escravista. Mais do que um espaço de fé, a Irmandade do Rosário constituiu-se como lugar de sociabilidade e resistência, junto a qual se realizavam manifestações afro-católicas, como os cucumbis, com seus cantos, danças e coroações de reis congos — práticas que reafirmavam a ancestralidade africana e o pertencimento negro em uma sociedade marcada pela escravidão..

Imortais: tambor, quilombo e cortejo

Um dos trechos mais potentes na sinopse do enredo afirma:

Imortais nos toques do tambor de sopapo, nos movimentos quilombolas que resistem e nas espadas, coroas e bandeiras dos Maçambiques de Osório.

Aqui, a Portela mostra que a cultura negra no Rio Grande do Sul não é passado, mas presença viva. Ela pulsa no tambor de sopapo, grande instrumento afro-gaúcho das charqueadas, cuja batida grave ecoa como memória da diáspora africana e afirmação da identidade negra. Pulsa também nos quilombos contemporâneos — como os Teixeiras, em Mostardas; o Areal da Baronesa e a Família Silva, em Porto Alegre — que seguem como marcos de resistência e memória. E pulsa ainda nos Maçambiques de Osório, celebração afro-brasileira dedicada à Nossa Senhora do Rosário, com danças, cantos, tambores e figuras como o Rei Congo e a Rainha Ginga, reafirmando espiritualidade e presença negra no espaço público. Essas manifestações são apresentadas como heranças vivas, transmitidas de geração em geração, apesar da violência, do racismo e da tentativa constante de apagamento.

Carnaval como história pública: coroar o que foi negado

Ao costurar mito, religiosidade, História e cultura popular, a Portela transforma o desfile em um poderoso exercício de história pública. O enredo e seu samba não apenas denunciam a invisibilização da população negra no Rio Grande do Sul e em Porto Alegre, como também restituem símbolos, personagens e territórios à narrativa nacional.

Quando o enredo afirma que “o pampa é terra negra em sua essência”, não se trata de metáfora poética, mas de reivindicação histórica. A coroa que ressurge sob o céu aberto do Rio Grande não pertence apenas ao Príncipe Custódio ou ao Negrinho do Pastoreio: ela simboliza a força de um povo que nunca deixou de existir.

No carnaval de 2026, a Portela nos lembra que no Brasil há um Sul africano, profundo e resistente — e que a festa, além de alegria e diversão, também é lugar de memória compartilhada, reconhecimento coletivo e afirmação pública da presença negra.


Referências
CUSTÒDIO, Jacqueline. Igreja da Nossa Senhora do Rosário (Beco do Rosário/Rua Vig. José Inácio). Memórias Negras em Verbete, 2024. Disponível em: https://www.memoriasnegrasemverbetes.com/. Acesso em: 11 jan. 2026.
G.R.E.S. PORTELA. Sinopse, 2025. Disponível em: https://www.gresportela.com.br/. Acesso em: 11 jan. 2026.
SILVA, Maria Helena Nunes. O Príncipe Custódio e a Religião Afro-Gaúcha. Dissertação (Mestrado em Antropologia) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 1999.
WEIMER, Rodrigo de A.; SCHERER, Jovani. No Refluxo dos Retornados: Custódio Joaquim de Almeida, o príncipe africano de Porto Alegre. Porto Alegre: Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão: Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul – APERS, 2021.

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