Entre cetros e confetes: Elvira Werna Coelho e o carnaval de Porto Alegre em 1911

Elvira Werna Coelho, rainha da Sociedade Carnavalesca Os Venezianos (1911). Ilustração digital produzida a partir de fotografia publicada na imprensa porto-alegrense do início do século XX

O carnaval de Porto Alegre, no início do século XX, passou por transformações profundas que ultrapassaram a esfera da diversão e atingiram valores morais, políticos e sociais. Nesse contexto, as mulheres ocuparam um lugar simbólico central. De figuras associadas à desordem e à licenciosidade — as “Evas” — passaram a ser exaltadas como símbolos de pureza, recato e virtude — as “Marias”.

Mas quem eram essas mulheres? Que trajetórias estavam por trás das imagens idealizadas exibidas nos desfiles e nas páginas dos jornais?

A partir da biografia de Elvira Werna Coelho, rainha da Sociedade Carnavalesca Os Venezianos em 1911, esta postagem busca refletir sobre gênero, poder e representação feminina no carnaval porto-alegrense, destacando as mulheres como sujeitos históricos e não apenas como ornamentos da festa.

Biografia como chave de leitura histórica

Nas últimas décadas, a biografia deixou de ser vista como um gênero menor pela historiografia. Em vez de narrar trajetórias lineares ou heroicas, passou a ser compreendida como uma ferramenta analítica capaz de articular experiências individuais e estruturas sociais, vida privada e espaço público, memória e poder.

É nesse sentido que a trajetória de Elvira Werna Coelho se torna reveladora. Ao observar sua experiência enquanto rainha do carnaval, é possível compreender não apenas uma vida individual, mas também os processos de genderização do carnaval em Porto Alegre — isto é, a construção de papéis, expectativas e hierarquias baseadas no gênero.

A genderização do carnaval em Porto Alegre

As sociedades carnavalescas Esmeralda e Venezianos, surgidas ainda no século XIX, tinham como objetivo “civilizar” os festejos, combatendo o entrudo e suas práticas consideradas excessivas e imorais. Esse projeto implicava também a redefinição dos lugares ocupados por homens e mulheres na festa.

Enquanto os homens assumiam o protagonismo organizacional e artístico, às mulheres cabia um papel cuidadosamente vigiado: serem belas, recatadas, elegantes e moralizadas. Com o ressurgimento das sociedades em 1906, essa lógica se intensificou. A imprensa passou a celebrar o carnaval como uma festa “familiar”, marcada pela presença de jovens brancas da elite, apresentadas como modelos de virtude.

As rainhas carnavalescas tornaram-se o símbolo máximo desse ideal feminino. Eram exaltadas não apenas por sua beleza, mas por atributos como modéstia, instrução, delicadeza e moral irrepreensível. Assim, o carnaval também funcionava como um dispositivo pedagógico, difundindo normas de comportamento e reforçando hierarquias sociais, raciais e de gênero.

Elvira Werna Coelho e o ideal feminino do carnaval

Foi nesse cenário que, em 1911, Elvira Werna Coelho foi apresentada ao público como rainha da Sociedade Carnavalesca Os Venezianos. Os jornais da época dedicaram-lhe longos elogios, descrevendo-a como delicada, graciosa, educada e dotada de um “espírito superior”.

Essas descrições dizem muito menos sobre Elvira como indivíduo e muito mais sobre o modelo de mulher que se desejava promover. Juventude, ternura, contenção e pureza aparecem como valores centrais, constantemente reiterados pela imprensa.

Ao ocupar o posto de rainha, Elvira não apenas participava do carnaval: ela simbolizava o próprio festejo. Sua imagem ajudava a sustentar a ideia de um carnaval moralizado, familiar e distinto — um carnaval que se pretendia oposto às manifestações populares vistas como desordeiras ou imorais.

Família, prestígio e redes de sociabilidade

A escolha de Elvira não pode ser compreendida sem considerar sua trajetória familiar. Filha e neta de figuras ativamente envolvidas nas sociedades carnavalescas, ela cresceu em um ambiente no qual o carnaval fazia parte da vida social da elite porto-alegrense.

Seu avô e seu pai ocuparam cargos importantes nessas associações, e sua mãe também havia sido rainha no século XIX. Essas redes de parentesco, vizinhança e prestígio social eram decisivas na escolha das soberanas e revelam como o carnaval estava profundamente ligado às estruturas de poder locais.

Nesse sentido, o espaço privado — a casa, a família — e o espaço público — a sociedade carnavalesca, as ruas, os jornais — se misturavam constantemente. A casa da rainha tornava-se local de recepções oficiais, e sua vida pessoal passava a ser observada, celebrada e julgada.

Ser rainha: visibilidade e controle

A rotina de uma rainha do carnaval era intensa. Elvira participou de festas de apresentação, visitas oficiais, inaugurações de espaços da sociedade e da exposição de seu retrato em ateliês fotográficos renomados da cidade.

A fotografia, símbolo de modernidade na virada do século, cumpria um papel central nesse processo. Os retratos das rainhas eram exibidos em vitrines e publicados nos jornais, tornando seus rostos conhecidos e admirados. Mas essa visibilidade vinha acompanhada de vigilância: cada gesto, roupa e comportamento precisava corresponder ao ideal de feminilidade que se desejava divulgar.

Assim, o carnaval também funcionava como um espaço pedagógico, no qual se ensinava — por meio de imagens e discursos — como uma mulher deveria ser.

Entre o ideal e a vida vivida

A trajetória posterior de Elvira revela, no entanto, as tensões entre o ideal feminino e a experiência concreta. Após o casamento, sua vida seguiu caminhos distintos daquele modelo idealizado que ela representara no carnaval.

Segundo memórias familiares, Elvira enfrentou dificuldades conjugais e precisou trabalhar fora de casa, tornando-se funcionária pública — uma escolha que contrariava o papel social tradicional atribuído às mulheres de sua geração, educadas para serem “rainhas do lar”.

Essas experiências mostram que a vida não segue roteiros pré-estabelecidos. Mesmo mulheres que encarnaram, em determinado momento, os ideais mais exaltados de seu tempo, precisaram negociar, resistir e reinventar seus lugares no mundo.

Considerações finais

Resgatar a história de Elvira Werna Coelho é dar visibilidade às mulheres que, por muito tempo, foram invisibilizadas pela historiografia tradicional. Sua presença como rainha do carnaval porto-alegrense nos lembra que as festas populares não são apenas momentos de diversão, mas também arenas de disputa simbólica, política e social.

Elvira foi uma das muitas mulheres que ajudaram a moldar o carnaval de Porto Alegre — e sua memória nos permite refletir sobre como gênero, poder e cultura se entrelaçam em nossas tradições festivas.

👉 Ao final desta postagem, convidamos você a conhecer o artigo acadêmico completo, disponível para leitura integral. Clique aqui!

Como citar este texto

LEAL, Caroline Pereira. Entre cetros e confetes: Elvira Werna Coelho e o carnaval de Porto Alegre em 1911. A Entrudeira, 2026. Disponível em: http://www.aentrudeira.com.br/2026/03/entre-cetros-e-confetes-elvira-werna.html. Acesso em: ___ ___ 2026.

Texto de divulgação científica baseado em pesquisa acadêmica previamente publicada em periódico científico.

Post a Comment