Escritas de Si: Quando o Carnaval Vira Carta
Os programas carnavalescos publicados nos jornais da época não eram simples anúncios. Eram verdadeiros manifestos, com estrutura epistolar, que revelavam como os carnavalescos queriam ser vistos, por si e pelos outros. Como afirma Gomes (2004), escrever cartas é “dar-se a ver”, e é exatamente isso que Os Venezianos e a Esmeralda faziam: construíam sua imagem pública, sua identidade coletiva, através da palavra.
Identidade em Disputa: O Eu e o Outro
Segundo Michael Pollak (1992), a identidade se constrói em relação ao outro. E no caso das sociedades carnavalescas, esse “outro” era a rival. Apesar de compartilharem o desejo de substituir o entrudo por um carnaval mais civilizado, Os Venezianos e a Esmeralda se diferenciavam em estilo, linguagem e visão de mundo.
Galanteios e Sermões: O Discurso às Mulheres
Em 1875, Os Venezianos distribuíram o puff “Profissão de Fé”, um recitativo galanteador que exaltava as mulheres e criticava a Igreja:
Eles não crêem nas lamúrias tolas / dessas beatas que passando vão / e que nos olhos a esfregar cebolas / fazem repuxos de alargar o chão!
Ao mesmo tempo, pediam às “castas donzelas da terra” flores, sorrisos e olhares de amor, afirmando serem “galhofeiros entes, castos, bondosos e gentis até”.
Já a Esmeralda, no mesmo ano, ofereceu um “Sermão” moralizante, lamentando os modismos femininos:
As moças de agora são todas disformes, / com trouxas enormes pendentes atrás. / Andando na rua se julgam faceiras! / Parecem leiteiras trazendo jacás!
Enquanto Os Venezianos cortejavam, a Esmeralda repreendia — revelando visões de mundo opostas.
Revolução Carnavalesca: Modernidade em Marcha
Em 1880, Os Venezianos conclamavam o povo à revolução — não armada, mas festiva:
A revolução é um direito conferido ao povo pelas leis da natureza! [...] Viva a Revolução! Abaixo a tirania!
Matronas respeitáveis! Ponde de parte o vosso reumatismo, a vossa enxaqueca e vinde rejuvenescer ao clarão dos grandes princípios que se abrigam nos corações dos Venezianos.
A Guerra Contra o Entrudo
Não temos podido abolir a perniciosa bisnaga, fonte de quanta constipação, pneumonia e tifo há!
Já os Esmeraldinos apelavam ao “século das luzes” e ao progresso para justificar sua cruzada contra o entrudo.
Façamos guerra e guerra de morte às antipáticas bisnagas, que são um sarcasmo pungente à nossa civilização.
Rivalidade e Crítica: A Crise das Sociedades
Em 1882, Os Venezianos culpavam o entrudo por sua crise. A Esmeralda, por sua vez, respondia com ironia, dizendo que o problema era a “pindaíba”, falta de dinheiro.
Ouvi-me, cidadãos: não quero com frases hiperbólicas pregar-vos uma moral chata [...] Sou do presente e realista às deveras, tendo ojeriza à pindaíba.
A troca de farpas revelava não apenas disputas carnavalescas, mas também tensões políticas e sociais que atravessavam a cidade — e o carnaval.
Carnaval como Espelho da Sociedade
Ao final, vemos que Os Venezianos e a Esmeralda, embora semelhantes em seus objetivos, construíram identidades distintas. Os primeiros, ousados e sarcásticos, buscavam conquistar o “belo sexo” com humor e irreverência. Os segundos, mais conservadores e refinados, apelavam à tradição e à moral. Ambos, porém, usaram o carnaval como palco para se mostrar, se afirmar, buscando transformar os costumes de então.
Referências
GOMES, Ângela de Castro. Escrita de si, escrita da História: a título de prólogo. In: GOMES, Ângela de Castro (org.). Escrita de si, escrita da história. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004.POLLAK, Michael. Memória e identidade social. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol.5, n.10,1992.
