Os “Caras Duras”: sátira, política e irreverência nos carnavais do final do Império

 Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial a partir de concepção histórica e curadoria editorial do blog A Entrudeira (2026).

Em 1886, um grupo de jovens oficiais, alunos da Escola Militar, criou um clube carnavalesco ao qual deu o nome de Cara Dura. O jornal A Federação noticiava: “também apareceram os cara duras, recitando versos e discursando às massas” (Porto Alegre, 10 mar. 1886, p. 2). No ano seguinte, o grupo abriu os festejos com um “estrondoso Zé Pereira”, acompanhado por bandas de música, formações de tambores e clarins, estalos fulminantes e fogos de bengala. Na praça da Alfândega, recepcionaram o Deus Momo ao som do hino marcial da agremiação (Ferreira, 1970). Em versos, apresentavam-se da seguinte maneira:

Nós não somos de ferro, senhores,
mas as caras nós temo-las duras.
Atirai serpentinas e flores
sobre as nossas enormes figuras.

Somos as caras
duras, incríveis,
das coisas raras,
quase impossíveis!... (Ferreira, 1970, p. 83)

De tom abertamente irreverente, como o próprio nome sugere — afinal, “cara dura” é aquele sujeito sem-vergonha, atrevido e desinibido —, o clube ficou conhecido por seus discursos inflamados e por suas “críticas endiabradas”. Trazendo acontecimentos políticos e seus personagens para o universo da folia, o Cara Dura transformava o carnaval em palco de sátira à cultura política e intelectual do final do Segundo Reinado. Embora o país ainda fosse uma monarquia, as ideias republicanas e positivistas já ganhavam força, sobretudo no Rio Grande do Sul, e serviam de combustível para o humor político do grupo.

No programa do carnaval de 1888, a agremiação dirigiu-se ao público em tom paródico, iniciando com um solene “Respeitabilíssimo público!”. O texto transformava Momo — o deus da folia — em figura substituta do imperador, invertendo as hierarquias e zombando do poder:

Por isso, conjuramos, com todo o entusiasmo que nos é peculiar, ao povo para que nos acompanhe sábado nos nossos principescos folguedos, indo ao nosso lado à recepção do rei altivo, sadio e muito mais sabichão do que outros que andam a vender pomadas pelas Europas (A Federação, Porto Alegre, 11 fev. 1888, p. 3).

A sátira dialogava diretamente com o contexto político da época. Em junho de 1887, D. Pedro II e a imperatriz Teresa Cristina embarcaram para a Europa a fim de tratar da saúde do monarca, que sofria de diabetes e pleurite. A viagem durou cerca de dez meses, durante os quais o imperador manteve uma rotina de visitas a bibliotecas, museus e teatros, encontrando-se com figuras como Louis Pasteur e Alexandre Dumas Filho. Também visitou ruínas arqueológicas, como Pompeia, e ampliou seu acervo de fotografias, que chegou a reunir mais de 21 mil imagens (Carvalho, 2007).

Apesar de sua reputação de “sábio”, “filósofo” e “viajado”, o programa carnavalesco dos Caras Duras comparava o imperador aos charlatães europeus que vendiam curas e remédios milagrosos. Por meio de um humor erudito e de uma linguagem intencionalmente exagerada, o texto denunciava a decadência da monarquia, o vazio dos discursos oficiais e a apatia popular diante da política — tudo mascarado pela alegria festiva do carnaval.

Segundo A Federação (Porto Alegre, 15 fev. 1888, p. 2), o desfile dos Caras Duras na segunda-feira de carnaval foi um sucesso:

Os espirituosos Caras Duras souberam com a palavra dar a nota de cada crítica, conseguindo com que o público lhes retribuísse em aplausos o que eles despenderam em boa e saudável alegria. Apresentaram um préstito de cerca de 15 carros, tendo à frente um grupo numeroso de amazonas... masculinos.

A presença de homens vestidos de mulheres fazia parte da tradição satírica do grupo. Como lembra Ferreira (2004, p. 19), essa prática remonta ao Egito Antigo, quando procissões em honra às deusas eram abertas por pessoas em disfarces variados, inclusive homens travestidos. O costume atravessou séculos e permanece vivo em blocos carnavalescos brasileiros, como As Virgens de Tambaú (João Pessoa), Bloco das Mimosas (Minas Gerais), A Bandida (Maranhão), Bloco das Piranhas (Mato Grosso do Sul) e As Virgens de Olinda (Pernambuco) (Gadini, 2010, p. 9). Em Porto Alegre, o travestimento tornou-se prática comum nos carnavais das décadas de 1930 e 1940, em blocos humorísticos compostos exclusivamente por homens (Rosa, 2008).

Do mesmo modo, o Cara Dura utilizava o atravessamento de gênero como recurso satírico. A inversão temporária — marca do grotesco carnavalesco — servia como crítica e paródia das convenções sociais. No desfile de 1907, por exemplo, a agremiação apresentou um “endiabrado rapaz” no papel de rainha. Segundo o Jornal do Comércio (Porto Alegre, 12 fev. 1907):

Salientava-se entre o corso o alteroso trono da rainha, que representava um dragão, guarnecido de adereços riquíssimos. A suposta deusa vestia toilete branca com adereços dourados. O endiabrado rapaz, com seu porte donairoso e cabelos castanhos, estava como uma verdadeira senhorita...

Enquanto outras sociedades carnavalescas glamourizavam suas soberanas, o Cara Dura transformava o posto de rainha em pilhéria, subvertendo a tradição. O trono em forma de dragão — símbolo do grotesco e do fantástico — contrastava com os carros luxuosos e elegantes das demais agremiações, que preferiam gôndolas, joias e tronos egípcios como expressões de distinção.

Outra inovação marcante do grupo foi a criação do Teatro João Minhoca. No carnaval de 1890, além de carros alegóricos alusivos à Queda da Monarquia e à Proclamação da República, os Caras Duras ofereceram à população porto-alegrense espetáculos ao ar livre de ilusionismo, concertos vocais e instrumentais e representações tragicômicas (Ferreira, 1970, p. 95).

Essa tradição permaneceu viva na memória popular. Em 1917, o cronista Mário, do jornal O Exemplo (Porto Alegre, fev. 1917), recordava com saudade o teatrinho itinerante:

Quem não conheceu o teatrinho ambulante João Minhoca?
Às noites de sábado eu deixava em casa meu reumatismo e todas as velhas enxaquecas e cedo, lépido e prazenteiro, no meio do povo, na rua dos Andradas, esperava o João Minhoca.
[...] O desenrolar de um horroroso drama ou tragédia provocava as mais gostosas gargalhadas.
Como era saudosamente alegre e boa a rapaziada do João Minhoca!”

Assim, o Clube Cara Dura consolidou-se como uma das expressões mais criativas e críticas do carnaval porto-alegrense. Entre a sátira política, o humor popular e o experimentalismo teatral, o grupo transformou a festa em um espaço de comentário social, onde o riso — erudito e popular ao mesmo tempo — servia como instrumento de reflexão e subversão das hierarquias do seu tempo.

Referências

Carvalho, José Murilo de. D. Pedro II: ser ou não ser. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
Ferreira, Athos. O carnaval porto-alegrense no século XIX. Porto Alegre: Globo, 1970.
Gadini, Sérgio Luiz. Representações femininas a partir de grupos masculinos no carnaval brasileiro. Diasporas, Diversidades, deslocamentos. Fazendo Gênero 9. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2010.
Rosa, Marcus V. de F. Além da invisibilidade: história social do racismo em Porto Alegre durante a pós-abolição (1884-1918). Tese (Doutorado em História). Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2014.

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