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| Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial sobre o carnaval de Porto Alegre e a crítica da imprensa. |
Mas o que isso significava? Quem dizia que o carnaval estava em crise? E por quê? Nesta postagem, explicamos como a imprensa porto-alegrense construiu críticas às festas carnavalescas e o que essas críticas revelam sobre a sociedade daquele período.
Um carnaval considerado “civilizado”
Em 1873 surgiram em Porto Alegre duas importantes sociedades carnavalescas: Esmeralda e Venezianos. Inspiradas nos carnavais europeus, especialmente os de Veneza e Nice, elas organizavam desfiles com carros alegóricos, fantasias luxuosas e bailes fechados para seus associados.
Para a imprensa da época, esse modelo representava um carnaval organizado, elegante e moderno, associado às elites urbanas e aos ideais de progresso e civilização. Durante alguns anos, essas sociedades foram apresentadas como o exemplo de como o carnaval deveria ser celebrado.
O desaparecimento das sociedades e a mudança da festa
Com o fim das atividades da Esmeralda e dos Venezianos, no final do século XIX, o carnaval não deixou de existir. Pelo contrário: ele continuou vivo nas ruas, nos bailes públicos e nas brincadeiras populares.
No entanto, essa mudança passou a incomodar muitos cronistas. Para eles, o carnaval havia perdido o luxo e a sofisticação e se transformado em algo desordenado e moralmente perigoso. É nesse contexto que surgem expressões como “tristes manifestações carnavalescas” nos jornais.
Bailes de máscaras: anonimato e medo da desordem
Os bailes de máscaras foram um dos principais alvos de crítica. A máscara permitia o anonimato, o que, segundo os jornais, facilitava comportamentos considerados inadequados ou imorais.
Curiosamente, quando esses mesmos bailes eram organizados por sociedades tradicionais, o tom crítico diminuía. Isso mostra que a preocupação não estava apenas no tipo de festa, mas em quem participava dela e quem a organizava.
Entrudo e confetes: brincadeiras populares sob vigilância
Outra prática muito criticada era o entrudo, uma brincadeira de origem ibérica que envolvia jogar água, líquidos perfumados ou outros materiais nas pessoas. Apesar de proibido por lei desde meados do século XIX, o entrudo continuava sendo praticado e aparecia com frequência nos relatos jornalísticos.
O uso de confetes e serpentinas também gerava comentários ambíguos. Embora considerados mais “inofensivos” do que o entrudo, esses jogos eram associados a flertes, contatos físicos e situações vistas como perigosas para a moral familiar.
As críticas revelam o desconforto da imprensa com a ocupação das ruas, a presença feminina ativa nas brincadeiras e a quebra temporária das normas sociais durante o carnaval.
Sociedades populares e o medo da mistura social
Mesmo sem Esmeralda e Venezianos, várias outras sociedades carnavalescas continuaram organizando desfiles e festas. Contudo, essas associações eram formadas principalmente por setores populares.
Para muitos jornais, isso representava um problema. A presença de danças como o maxixe, associadas à cultura negra e popular, era vista como exagerada, obscena e moralmente condenável. O carnaval popular passou a ser acusado de promover três grandes “perigos”: imoralidade, licenciosidade e promiscuidade social.
Carnaval, moral e controle social
As críticas ao carnaval faziam parte de um projeto mais amplo de controle dos costumes e de defesa do chamado “saneamento moral” da cidade. A imprensa defendia maior vigilância policial e controle sobre as festas, especialmente aquelas organizadas pelo povo.
Nesse sentido, o carnaval se tornou um espaço de disputa: enquanto as elites defendiam um modelo seletivo e controlado de festa, as camadas populares ocupavam as ruas com suas próprias formas de celebrar.
Para pensar
Quando a imprensa dizia que o carnaval estava em decadência, não falava apenas da festa em si. Falava, sobretudo, do medo da mistura social, da perda de controle e da visibilidade das culturas populares.
Compreender essas críticas nos ajuda a perceber que o carnaval sempre foi mais do que diversão: ele é também um espaço de conflitos, negociações e disputas sobre quem pode ocupar a cidade e expressar sua alegria.
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Como citar esta postagem
LEAL, Caroline Pereira. A crítica da imprensa ao carnaval de Porto Alegre. A Entrudeira, 2026. Disponível em: https://aentrudeira.blogspot.com/critica-imprensa-carnaval-porto-alegre. Acesso em: ___ ___ 2026.
Texto de divulgação científica baseado em pesquisa acadêmica previamente publicada em periódico científico.
