O Jornal da Esmeralda

 

Ilustração gerada por inteligência artificial, inspirada no Jornal da Sociedade Carnavalesca Esmeralda (1909), a partir de concepção  histórica e curadoria editorial do blog A Entrudeira (2026).

O carnaval de Porto Alegre, no início do século XX, não se restringia às ruas, aos bailes ou aos desfiles. Ele também se fazia no papel, dando continuidade a uma prática já consolidada desde o final do século XIX. Fundada em 1873, a Sociedade Carnavalesca Esmeralda distribuía, desde o carnaval de 1875, um jornal durante suas apresentações públicas, no qual se misturavam sátira, poesia, memória institucional e crônicas do cotidiano.

Na postagem de hoje, resgatamos um exemplar do Jornal da Esmeralda, provavelmente datado de 1909, hoje preservado no acervo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul. Mais do que um simples registro da festa, esse impresso funcionava como uma extensão simbólica do desfile. Ao circular entre os espectadores, convidava o público a acompanhar o carnaval não apenas com os olhos, mas também por meio da palavra escrita, ampliando os sentidos da experiência festiva.

Literatura e humor

O jornal alterna entre narrativas burlescas e poemas laudatórios, compondo uma escrita marcada pelo contraste. Nas crônicas, o exagero e a ironia são recursos centrais. Personagens como Libório, que causa espanto ao anunciar casamento com a viúva Nalá, ou Bonifácio José de Sant’Anna, confundido com uma parturiente em meio ao Zé-Pereira, revelam o carnaval como espaço de riso, inversão e desordem temporária.

Em contraponto, os sonetos dedicados às rainhas da Esmeralda elevam a linguagem ao tom sublime, descrevendo-as como “Divindade Humana” ou “Estrela d’Alva”. O contraste entre o grotesco das crônicas e o idealizado da poesia integra a própria estética carnavalesca, na qual o excesso, a paródia e a exaltação convivem lado a lado.

Sociedade e costumes

O discurso do jornal expõe valores e tensões da Porto Alegre do período. O casamento aparece como tema recorrente, atravessado por convenções sociais, expectativas familiares, dotes e hierarquias. As mulheres são representadas ora como símbolos de prestígio e distinção (no caso das rainhas), ora como figuras vulneráveis ou ridicularizadas, como Nalá ou D. Lina, revelando ambiguidades e desigualdades nas representações de gênero.

A multidão carnavalesca, por sua vez, é frequentemente descrita como caótica e opressiva, capaz de transformar um “homem sério” em alvo de zombaria pública. Essas imagens revelam tanto o imaginário das elites organizadoras do carnaval quanto a presença do povo como força desestabilizadora, que escapa ao controle e à ordem desejada.

Memória e poder

Além do humor e da crítica social, o Jornal da Esmeralda cumpre uma clara função documental. Ao listar fundadores, presidentes e rainhas, o periódico preserva a memória da agremiação e legitima sua posição na hierarquia carnavalesca da cidade. O discurso institucional reforça a tradição, a antiguidade e o prestígio da Esmeralda.

Nesse contexto, a rivalidade com os Venezianos é narrada como uma verdadeira “guerra santa”, evidenciando que o carnaval também era um campo de disputa simbólica. O jornal, assim, atua simultaneamente como arquivo histórico e instrumento de afirmação de poder cultural.

Por que revisitar o Jornal da Esmeralda?

O exemplar do Jornal da Esmeralda revela que o carnaval porto-alegrense era um fenômeno cultural total, no qual festa, arte, política e memória se entrelaçavam. Ao imprimir suas histórias, a Esmeralda não apenas registrava o evento, mas produzia um discurso que reforçava identidades, disputava prestígio e divertia o público.

Como todo impresso produzido para uma ocasião específica, o jornal reflete escolhas, valores, interesses e silêncios de seu tempo. Não se trata de um retrato neutro do carnaval, mas de uma maneira particular de pensá-lo, narrá-lo e apresentá-lo à cidade. É justamente por isso que documentos como esse são tão valiosos: eles nos permitem compreender não apenas o que acontecia na festa, mas como ela era vivida, interpretada e disputada por seus próprios protagonistas.

Convidamos, por fim, o leitor a conhecer diretamente o Jornal da Esmeralda que inspira esta análise. O exemplar, disponibilizado ao final da postagem, permite acompanhar de perto as narrativas, poemas, ironias e silêncios que compõem esse impresso carnavalesco. Mais do que complementar a leitura, o documento oferece a oportunidade de dialogar com a fonte, observar seus detalhes e experimentar, ainda que à distância, o carnaval que se escrevia, se imprimia e circulava pelas ruas de Porto Alegre no início do século XX.

Por ora, fiquem com o documento.

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